segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

"Como beber dessa bebida amarga? Tragar a dose, engolir a labuta? Mesmo calada a boca, resta o peito silêncio na cidade não se escuta. De que me vale ser filho da santa? Melhor seria ser filho da outra, outra realidade menos morta, tanta mentira, tanta força bruta. Pai, afasta de mim esse cálice. Pai, afasta de mim esse cálice. Pai, afasta de mim esse cálice, de vinho tinto de sangue. Como é difícil acordar calado se na calada da noite eu me dano, quero lançar um grito desumano que é uma maneira de ser escutado. Esse silêncio todo me atordoa, atordoado, eu permaneço atento, na arquibancada pra a qualquer momento ver emergir o monstro da lagoa. Pai, afasta de mim esse cálice. Pai, afasta de mim esse cálice. Pai, afasta de mim esse cálice, de vinho tinto de sangue. Cálice, cálice, cálice. De muito gorda a porca já não anda, de muito usada a faca já não corta, como é difícil, pai, abrir a porta essa palavra presa na garganta. Esse pileque homérico no mundo de que adianta ter boa vontade? Mesmo calado o peito, resta a cuca dos bêbados do centro da cidade. Pai, afasta de mim esse cálice. Pai, afasta de mim esse cálice. Pai, afasta de mim esse cálice, de vinho tinto de sangue. Talvez o mundo não seja pequeno nem seja a vida um fato consumado, quero inventar o meu próprio pecado, quero morrer do meu próprio veneno. Quero perder de vez tua cabeça, minha cabeça perder teu juízo, quero cheirar fumaça de óleo diesel, me embriagar até que alguém me esqueça. Cálice."

(Composição: Chico Buarque e Gilberto Gil)

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